Uma breve história e um panorama atual das Neurociências no Brasil
Psicologia

Uma breve história e um panorama atual das Neurociências no Brasil


No Brasil, a história das Neurociências se confunde com a história da Fisiologia, e, mais especificamente, com a história da Neurofisiologia. Como aponta Cesar Timo-Laria (veja aqui), o estudo experimental e sistemático da Fisiologia teve início, no país, com os estudos dos irmãos Álvaro e Miguel Ozório de Almeida, no Rio de Janeiro do início do século XX. Segundo o autor, estes irmãos criaram, na década de 1910, o primeiro laboratório de fisiologia, além da primeira escola do campo no Brasil. Além disso, eles iniciaram os estudos em neurofisiologia no país. Miguel, especialmente, teria dedicado toda sua vida ao estudo da fisiologia e fisiopatologia do sistema nervoso, tendo inclusive publicado, em 1944, um livro sobre os processos de inibição e facilitação no sistema nervoso central e periférico. Segundo Dora Fix Ventura (neste artigo), especialmente a partir das décadas de 1940 e 19550 houve um grande impulso na área dos estudos em neurofisiologia, o que pode ser observado pela criação de grupos de pesquisa, como aqueles liderados por Aristides Pacheco Leão, na UFRJ, Carlos Diniz, na UFMG e Miguel Covian, na USP. Nas décadas de 1960 e 1970 outros grupos são criados nestas e em outras universidades, majoritariamente da região sudeste, e as pesquisas sobre o sistema nervoso se multiplicam. Neste momento, a expressão neurociências começa a ser utilizada pelos pesquisadores brasileiros para se referir a uma nova disciplina guarda-chuva que englobaria todos os estudos sobre o sistema nervoso. No entanto, somente mais tarde, especialmente a partir da década de 1990, é que a expressão se consolidará no universo acadêmico-científico brasileiro.

Um passo importante, nesse sentido, foi a criação, em 1977 da Sociedade Brasileira de Psicobiologia. Segundo sua ata de fundação (disponível aqui), a entidade foi criada por um grupo de psicólogos, psicofarmacólogos, neurofisiologistas, psiquiatras e outros profissionais, com o objetivo de “congregar os interessados em Sistema Nervoso e/ou Comportamento” ou, como afirma, Ventura “promover a integração entre psicologia e neurociência”. Segundo esta autora, que consta entre seus membros-fundadores, o nome da entidade perdurou até o início dos anos 1990, quando, para evitar a criação de uma segunda entidade na mesma área, dedicada à Bioquímica, decidiram alterá-lo para Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC), nome que se mantém até hoje[1]. 

A SBNeC é, sem dúvida, a principal entidade relacionada ao campo neurocientífico no Brasil, possuindo atualmente cerca de 3.300 associados, dentre “pesquisadores, pós-graduandos e estudantes de todo o país que estejam envolvidos com as diferentes facetas do estudo do Sistema Nervoso” (fonte). A SBNeC, que é filiada internacionalmente, à International Brain Research Organization (IBRO) e à Federação das Associações Latinoamericanas e do Caribe de Neurociências (FALAN) e nacionalmente à Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) e à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realiza, anualmente, uma reunião que reúne milhares de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento dedicados à pesquisas em neurociências e comportamento.

Em um trabalho de 2010 intitulado Um retrato da área de Neurociência e Comportamento no Brasil (leia aqui), Ventura traz algumas importantes informações sobre o campo das neurociências no país. Segundo ela, a comunidade de neurocientistas compreendia, naquele momento, cerca de 2 mil pesquisadores, dentre professores/pesquisadores e estudantes de pós-graduação. Segundo levantamento realizado pela autora tais pesquisadores atuavam – e ainda atuam – predominantemente em grupos de pesquisas ligados a universidades públicas situadas na região sudeste – destaque para a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ)[2]. Especificamente, tal levantamento apontou que tais grupos de pesquisas estão ligados a diversos departamentos, como Bioquímica, Psicologia, Zoologia, Neurobiologia, Nutrição, Psiquiatria, Ciência da Computação, etc, o que confirma o caráter interdisciplinar do campo neurocientífico. 

Além disso, a autora destaca os principais temas estudados no país pelos neurocientistas em seus grupos de pesquisa: memória em humanos e não humanos, psicofarmacologia, comportamento animal e neuroetiologia, epilepsia, sistema visual, organização funcional do sistema nervoso, sono e cronobiologia, doença mental e doenças degenerativas, engenharia biomédica e redes neurais, nutrição e funcionamento do cérebro, regeneração do sistema nervoso e neurociência computacional. Esta multiplicidade temática se traduz, por sua vez, na multiplicidade metodológica do campo das neurociências, no Brasil e no mundo. A divisão do campo neurocientífico, proposta por Roberto Lent em cinco disciplinas (Neurociência molecular; Neurociência celular; Neurociência sistêmica, Neurociência comportamental e Neurociência Cognitiva) reflete, de certa forma, esta heterogeneidade.

Analisando especificamente a produção científica do campo no país, Ventura estima que cerca de 20% dos trabalhos produzidos na área biológica e biomédica sejam de neurociências. Segundo ela, a produção científica, especialmente em pesquisa básica, já é intensa e se expande cada vez mais. Isto pode ser observado, aponta, pela multiplicação de trabalhos sobre o sistema nervoso apresentados em alguns congressos científicos brasileiros. Por exemplo, na Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, os trabalhos ligados à temática das neurociências e comportamento compõem cerca de 30% do total. Segundo a autora, pode-se encontrar também uma considerável proporção de trabalhos em neurociências nas reuniões anuais da Sociedade Brasileira de Bioquímica, da Sociedade Brasileira de Imunologia e mesmo da Sociedade Brasileira de Psicologia. Além disso, Ventura aponta, a partir de dados fornecidos pelo Institute for Scientific Information, que o campo neurocientífico brasileiro se encontra dentre os mais bem-sucedidos academicamente, estando cerca de 20% dos neurocientistas brasileiros situados dentre os mais produtivos de todas as áreas do conhecimento no Brasil.


Tudo isto sinaliza para uma expansão do campo neurocientífico brasileiro, especialmente nas últimas duas décadas, o que pode ser constatado tanto pelo aumento no número de centros, institutos, pesquisas e pesquisadores dedicados ao estudo do sistema nervoso e sua relação com o comportamento normal ou patológico. Além disso, é possível observar a multiplicação de entidades de agremiação de pesquisadores, como a Sociedade Brasileira de Neurociências e o Instituto de Neurociências e Comportamento, e de publicações, como o periódico Psychology & Neuroscience e a Revista Neurociências. Isto se analisarmos somente o universo acadêmico-científico. No entanto, tem se proliferado pelo país iniciativas e publicações voltadas para a divulgação/difusão do conhecimento neurocientífico para o chamado público leigo. O cérebro, de fato, está cada vez mais visível, tanto no sentido de ser possível atualmente, em função das tecnologias de neuroimageamento, visualizá-lo vivo e ao vivo quanto no sentido de receber grande atenção dos meios de comunicação. Enfim, o cérebro está na moda.


[1] Segundo Ventura, a introdução da palavra ‘comportamento’ teve como objetivo integrar (ou não afastar) os psicólogos experimentais da entidade. 

[2] Fora da região sudeste, Ventura aponta para a realização de pesquisas em neurociências nas seguintes instituições: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Paraná (UFPR).




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