Entrevista com diretor do curso de Psicologia da Universidade do Minho
Psicologia

Entrevista com diretor do curso de Psicologia da Universidade do Minho



Entrevistei o diretor do curso de Psicologia da UMinho, o professor Emanuel Pedro Viana Barbas Albuquerque. Licenciado e doutor pela Universidade do Porto, atualmente é docente e pesquisador na área da memória. Além de diretor do curso, ele também é o coordenador do Mestrado Integrado em Psicologia Experimental. É um professor muito querido pelos alunos, e que digamos assim, dá o que chamamos de uma boa aula. Preocupado com o entendimento do aluno e com o seu aperfeiçoamento. Nessa entrevista, fiz perguntas para o professor na qualidade de diretor do curso (na próxima postagem, a parte da entrevista como coordenador do mestrado integrado em psicologia experimental).

Cientificamente - Primeiro vou lhe fazer algumas perguntas com relação ao curso de Psicologia na UMinho. O senhor poderia falar um pouco sobre as propinas e em que se baseia o Estado para poder cobrá-las? (Aqui cabe um parêntesis. Nas universidades portuguesas públicas, o aluno paga um certo valor, que é chamado de propinas – não confunda com o sentido brasileiro, que é criminoso. São taxas que todo aluno deve pagar para poder cursar a universidade pública).

A propina é uma taxa que é imputada ao aluno para permitir a freqüência no ensino superior. Ela determina que um aluno médio em Portugal do ensino superior, digamos assim, custa X, por exemplo, 5 mil euros por ano. O aluno deve ser responsável pelo pagamento de até um quinto desse valor. O restante do valor da formação do aluno é a verba que o Estado dá às universidades por cada aluno que tem. A Universidade do Minho recebe por cada aluno cerca de 4 mil euros do Estado, sendo que o restante do custo médio estimado por aluno ao ano tem que ser suportado pelo aluno. Isso pode fazer com que de ano para ano, as propinas possam variar. De fato, a propina foi muito baixa até uns anos atrás, mas agora se aproxima de um quinto do valor, e agora as universidades praticam o valor máximo que podem cobrar como propina, que é um quinto desse custo estimado médio. Estamos a falar das propinas do mestrado integrado, pois depois há as propinas do doutoramento, que têm valores completamente diferentes, bem mais altos.

Cientificamente - Para o doutoramento, como são as regras?

Para o doutoramento é diferente, ele tem um valor livre de financiamento. Significa que a universidade decidiu que para cobrir os custos associados a um aluno de doutoramento, pagam cerca de 2.400 euros por ano. Por isso as propinas de um aluno de doutoramento são muito maiores que a de um aluno do mestrado integrado. O Estado não financia os alunos de doutoramento, as universidades é que decidem um certo valor, bem pequeno, para auxiliar.

Cientificamente - O valor da propina pode ser divido para pagamento em vezes? Porque apesar de não ser um valor tão elevado, muitas famílias podem ter dificuldade de pagar.

Sim, pode ser dividido em vezes, se não me engano, em até quatro vezes. Também temos um serviço de ação social, em que os alunos mais carentes podem ter bolsas, que podem até chegar à redução do valor da propina. O que acontece é que o sistema fiscal português, como em muitos outros países, é fácil de furar. Pode acontecer de uma pessoa de classe média superior, porque tem rendimentos anuais declarados baixos pode ter acesso a uma propina enquanto alguém que trabalha para o Estado e que não pode fugir ao fisco, pode não ter acesso a certos auxílios. Em Portugal, quem paga mais impostos é a classe média. Porque a maioria trabalha para o Estado e não pode fugir ao fisco. Ainda bem, porque acho que todos devemos pagar impostos, mas todos deveriam pagar o que têm que pagar, e não só a classe média.

Cientificamente – O senhor acha que em Portugal funciona aquele ideal de os alunos com menos poder aquisitivo irem para as universidades pública, e os com maior poder aquisitivo irem para as públicas?

Acho que não. Acho que a divisão entre o público e o privado não tem tanto a ver com essa concepção. Claro que do ponto de vista do acesso ao ensino superior, é muito claro que quem tem o acesso normalmente são os alunos das classes médias do ensino regular. Mas isso tem a ver com o próprio sistema de ensino até o ensino secundário, que aqui é o equivalente ao décimo segundo ano. A escola é fundamentalmente uma escola cultural, quem está mais próximo ao meio dessa escola, que são as classes mais altas, tem mais sucesso acadêmico. Isso é tão evidente que a partir do décimo primeiro, décimo segundo, o número de alunos que utiliza o apoio escolar particular fora da escola é imenso. E se paga muito caro por isso. Portanto, é preciso ter algum poder de compra para poder recorrer a isso. O que acontece mais, eu penso, é quando se analisa que pessoas vem para a universidade. A UMinho tem uma questão regional, ou seja, os alunos que vem para cá são da própria Braga e das cidades dos arredores. Isso é uma característica das universidades daqui, a mobilidade não é tão grande. As pessoas acabam optando, não conseguindo entrar numa universidade pública, por uma particular. Por exemplo, se um aluno quer fazer psicologia, e tem uma universidade particular em sua cidade, e uma pública em outra, ponderando os custos acaba ficando na particular. Percebe que é mais barato ficar em casa e pagar a propina da particular, que é mais elevada, do que ter que se mudar e alugar um quarto, comer fora. Nos últimos anos, nós estamos enfrentando o abandono do ensino superior. Há muitos alunos que abandonam a universidade. A maior razão é a econômica. Normalmente são pessoas de outras cidades, que vêm para cá e de fato não agüentam. Porque não são só propinas, são fotocópias, comida, todo o custo associado ao fato de se estar deslocado. Portanto, esse tem sido um problema para as universidades.

Cientificamente – Aqui na universidade há um tipo de aluno que se chama aluno-trabalhador. Quais os benefícios que ele tem?

O ensino superior português tem um estatuto especial, digamos assim, para os trabalhadores estudantes. Isso está regulamentado, e a lei determina que um aluno que trabalha e que esteja a cursar o ensino superior tem algumas horas por semana que pode sair do trabalho para freqüentar a universidade. Digamos que alguém tem um contrato de trabalho de 35 a 40 horas semanais. A pessoa pode escolher não trabalhar em determinados dias até o máximo de X horas. Em função disso, a pessoa pode procurar organizar a sua vida para poder ir às aulas. Na universidade, esses alunos têm o estatuto de trabalhador-estudante, o que significa que não podem reprovar por faltas. Tem alguma possibilidade de não virem as aulas, claro, e tem regimes de avaliação especiais. Têm mais oportunidade para fazer exames. Com Bolonha, com essa nova forma de encarar o ensino, mais baseada no desenvolvimento de competências e apoio tutorial, esses alunos têm mais dificuldade de acompanhar. Como não podem estar sempre presentes, acabam prejudicados. Bolonha tem isso do apoio tutorial, o professor acompanhando continuamente o aluno, as competências de ensino, portanto, é mais difícil para esses alunos.

Cientificamente – Como estão os cursos de psicologia em Portugal?

Em Portugal há muitos cursos de psicologia. Recentemente, com a adesão ao processo de Bolonha e com o mestrado integrado, surgiu a idéia de que não é mais suficiente três anos para a prática da psicologia, são necessários cinco anos com os dois últimos sendo a especialização. O Estado começou a regulamentar as universidades que têm competência para realizar esse tipo de mestrado integrado, que são poucas: Uminho, Porto, Lisboa, Coimbra e o ISPA. São só cinco no país inteiro, quatro públicas e o ISPA, que é privado. As outras universidades oferecem um primeiro ciclo, um bacharelado, e depois podem oferecer o segundo ciclo. Com esta nova regra para os cursos de psicologia, é provável que esses cinco cursos se estruturem como os mais fortes, e os que não conseguirem chegar, terão cada vez menos alunos. Os alunos vão ser confrontados com isso. Posso entrar em um curso de cinco anos que me garante o exercício profissional ou em um outro que não me garante. Recentemente, as bolsas da FCT que são para os alunos do doutoramento, começaram a beneficiar aqueles que já vêm com o mestrado integrado, dando mais pontuação a eles. Isso mostra que o próprio Estado, depois de ter criado o mestrado integrado, está a começar a valorizar as candidaturas desse tipo de formando. É mais uma indicação de que no futuro os mestrados integrados estarão associados ao doutoramento. Claramente há essa idéia de que a formação em psicologia deve ter três ciclos contínuos [primeiro – licenciatura, segundo – mestrado, terceiro – doutorado].

Cientificamente – O curso de psicologia da universidade do minho oferece mestrado em sete áreas - Psicologia Clínica; Psicologia da Saúde; Psicologia Escolar e da Educação; Psicologia do Trabalho, das Organizações e dos Recursos Humanos; Psicologia da Justiça; Psicologia do Desporto e do Exercício; e Psicologia Experimental e suas Aplicações. Qual especialização os alunos preferem?

Nós temos vagas em toda as áreas. Há áreas que são sistematicamente preenchidas, que são a justiça e a clínica. A área da saúde também tem sido escolhida Depois, há outras áreas que não tem todas as vagas preenchidas. As pessoas quando vêm ao curso vêm com uma idéia, que é a de serem psicoterapeutas. Á medida que vão avançando no curso, alguns vão mudando de idéia. Saúde, justiça e clínica são as áreas mais centradas na intervenção, e são as mais escolhidas. As outras quatro são menos centradas na intervenção, e são menos escolhidas.

Cientificamente – Qual é a área mais concorrida? E a menos?

A mais concorrida é a clínica e a menos concorrida é desporto. Nos últimos anos, escolar e organizações têm crescido. Experimental e desporto são áreas menores. Apesar de tudo, a área de experimental consegue preencher todas as vagas, pois são poucas. A área em que sempre há mais candidatos do que vagas é justiça. Nesse caso, a seleção é por nota. Aliás, todas as seleções são por nota, seja para as disciplinas, para estágios. E no mestrado, temos sempre mais vaga do que alunos. O que varia é o número de vagas em cada área, por isso as vezes um mestrado é muito concorrido e tem mais alunos do que vagas. As vagas que sobram são abertas para alunos de outras universidades.



Queria agradecer ao professor Pedro por ter cedido seu tempo para essa entrevista. É interessante saber o funcionamento de uma outra universidade, principalmente em outro país, ainda mais Portugal, pelo nosso passado colonial.



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